A República de Platão: outros olhares
Dennys Garcia Xavier e Gabriele Cornelli
SÃO PAULO: EDIÇÕES LOYOLA, 2011, 334 P.
Por Gilmário Guerreiro da Costa

O livro A República de Platão: outros olhares, organizado por Dennys Xavier e Gabriele Cornelli, acolhe os textos de algumas palestras ministradas por ocasião do X Simpósio da Sociedade Brasileira de Platonistas, realizado na Universidade Federal de Uberlândia, no ano de 2009. Ao evento compareceram importantes especialistas nacionais e internacionais na filosofia platônica. Seu foco residiu no estudo da República platônica, em busca de uma tomada a sério do seu legado, mormente do exame de uma hipótese instigante: a do caráter vivo dessa obra, capaz de suscitar ângulos imprevistos de inter-pretação.
Tornou-se lapidar a frase de Alfred North Whitehead, de ser a tradição filosófica ocidental, em grande medida, composta de notas de rodapé à obra platônica (“The safest characterization of the European philosophy tradition is that it consists of a series of footnotes to Plato”). Não parece razoável tomar essa referência por oráculo indiscutível, uma vez que a tradição ocidental não poderia resumir-se a notas de rodapé a qualquer filósofo – salvo se considerássemos semelhante expediente enquanto esforço marginal de abertura de novas vias interpretativas. É nessa direção que nos parece residir os componentes mais fecundos da afirmação de Whitehead.
Não raro a relação com uma obra clássica, tal como os diálogos platôni-cos, encena espírito tão venerável que se arrisca a inibir uma apropriação criativa do seu legado. As notas de rodapé, nesse caso, são variações miméticas movidas num mesmo caminho desde sempre predeterminado. No entanto, o exame da história da recepção dessas obras revela quadro em tudo diferente: cada época repõe no proscênio um conjunto de textos da tradição considerados essenciais. Em termos borgianos, na história seguimos criando os nossos precursores clássicos. Nesse sentido, as notas sinalizariam agora os pontos marginais a partir dos quais se extraviam criativamente os caminhos da tradição.
Importa ainda salientar que a afirmação dos clássicos não nos compromete com um discurso laudatório, mas com um diálogo necessário com os seus autores. No caso ora em análise, com Platão, mesmo que isso exija o exercício de uma reflexão contrária a Platão – e, no limite, a contrapelo da própria tradição platônica, em busca de novos olhares.
Os textos clássicos demonstram força ora construtiva, ora disruptiva peculiar aos clássicos sobremodo na obra platônica devido às suas características literárias: o estilo, a urdidura do diálogo, a retomada em nível e posição diferentes de diversos temas discutidos ao longo da sua obra, apenas para citarmos alguns elementos propensos a inquietar mesmo os leitores mais atentos.
O livro ora em recensão enfrenta com notável destemor tais desafios. Consta de vinte e dois capítulos, cada um deles escrito por um dos palestrantes do referido Simpósio, oferecendo análise multifacetada da quase totalidade do diálogo platônico: o problema da escrita, arte, retórica, deus, ontologia, lógos, justiça, política, ética, alma, teoria das formas, epistemologia, metafísica. Riqueza do Simpósio, espelhando a riqueza da República. Em torno aos debates e discussões, emerge o problema da leitura, já anunciado na introdução escrita pelos organizadores: os modos de ler os diálogos. Desse modo, coloca-se a serviço do debate no âmbito dos estudos platônicos um elemento avançado nas investigações contemporâneas acerca do problema da recepção: o leitor que se esgueira nas malhas textuais.
O texto de abertura, de Maurizio Migliori, já dimensiona essa inter-relação entre escrita e leitura: “Platão utiliza uma forma de escrita peculiar. (....) o “verdadeiro diálogo não é aquele que se desenvolve na ficção entre os personagens da obra, mas aquele que o autor quer instaurar com seu leitor, que portanto é provocado de várias maneiras.” (p. 13) A escrita é uma instância recorrente nos diversos artigos, e amiúde compreendida enquanto responsável por parte considerável das dificuldades em se chegar a uma interpretação estável dos conceitos e posições filosóficas de Platão. Ou seja, deve-se a ela o motor pulsante e vivo desse pensamento – quase como se o mestre grego, ao revés das observações do seu diálogo Crátilo, titubeasse quanto à possibilidade de uma elaboração plena do pensar sem a mediação da linguagem.
Numa bela e convincente defesa do texto platônico, Dennys Xavier, um dos organizadores do livro, detém-se num traço importante dos diálogos: sua incompletude. O autor sustenta residir numa intenção pedagógica a opção por semelhante inacabamento: “Uma espécie de reticência pedagógica de caráter protréptico que na República se manifesta inclusive na ausência de um completo tratado sobre o Bem.” (p. 236-7). Um pouco adiante, observa com argúcia: “Este diálogo “texto-leitor”, no entanto, nunca é (ou quase nunca é) completamente transparente, como gostaríamos” (p. 237). Sem que se abandone a imagem do filósofo metafísico em busca das essências puras, vai-se insinuando, aqui e acolá, no curso dos artigos, também a imagem do Platão escritor e artista, fascinante e perturbadora, a contrapelo da crítica visceral a que o filósofo grego submeteu os artistas no livro X daRepública. Como se pode notar, não se esconde o labirinto complexo de conceitos e paixões constitutivos dessa obra algo paradigmática.
Também bastante exemplificativo do espírito da publicação é o artigo de seu outro organizador, Gabriele Cornelli. Ele sustenta haver no projeto platônico de fundação de uma cidade alicerçada em pressupostos filosóficos seguros, notável herança pitagórica. A tese se estrutura, inicialmente, na reconstrução histórica da figura de Pitágoras. Ele teria sido responsável por organizar em diversas comunidades antigas uma experiência política notavelmente afim à desenvolvida na República. Por meio dessas premissas o autor monta as peças para a demonstração do legado não apenas matemático, mas também político, devido por Platão às ideias pitagóricas. Da convergência das conjeturas políticas dos dois filósofos se fundamentaria o assesto de exequibilidade da utopia platônica, e isso por estar firmada “naquela que foi, antes de Platão, a experiência político-normativa dos pitagóricos dos séculos de VI a IV AEC” (p. 154) Ao conceder relevo, com razões consistentes, ao Pitágoras político, Cornelli fornece as peças para uma revisão da suposta impraticabilidade do projeto platônico. Trata-se de uma leitura notável pelo esforço de erudição e imaginação filosófica, inspiradores para quantos anseiam por uma retomada em vias diversas do texto do mestre ateniense.
O último artigo coube a Thomas Robinson. Elegante e de uma erudição rara, porque rica e inteligente. Num tour de force considerável, inicia-se com uma análise cuidadosa do livro I da República, em conjunção com outras passagens do diálogo. O resultado é a elaboração do quadro de um Platão avançado em anos e a empenhar-se numa investigação sempre outra vez renovada. Robinson afirma: “porque eu vejo a vida inteira de Platão como sendo inspirada por uma das maiores declarações de seu Mestre: “A vida sem busca não vale viver”. Nisto, ele ainda é o maior aluno de seu Mestre.” (p. 313) Não nos custaria assim divisar um outro Platão no centro do afresco A escola de Atenas, de Rafael: seu gesto seria hesitante e guardaria no braço não o Timeu, mas a Apologia. A seu modo um mestre brasileiro criado por Guimarães Rosa, Riobaldo, afirma: “Vivendo se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.” Mas o artigo não estanca aqui. Abre em sua segunda parte um exame breve, mas aprofundado da recepção platônica em três tempos: Agostinho, Marcílio Ficino e Louis Lavalle. Saímos desse percurso com a impressão revivificada da vitalidade da tradição platônica, das múltiplas veredas que se descerram no caminho dos seus leitores, em especial aqueles mais teimosos e persistentes. Afinal de contas, a escrita de notas em torno a Platão é um exercício recorrentemente lavrado em paixão e assombro, e esses vividos simultaneamente.
Além do seu caráter erudito, A república de Platão: outros olhares é também recomendável devido ao esforço de revisitar os textos platônicos com o frescor e a abertura que um escrito clássico sempre outra vez suscita. Nesse livro há desenvolvimentos e indicações que bem podem influenciar parte considerável das pesquisas em torno à obra platônica nos próximos anos. Que seja publicada em português, resultante de um Simpósio organizado no Brasil, deve motivar nossa mais alta consideração, atentos às possibilidades fecundas de pleno desenvolvimento dos estudos de filosofia antiga em geral, e platônica em especial, em nosso país.
Gilmário Guerreiro da Costa é professor da Universidade Católica de Brasília e Pós-doutorando do Dep. de Filosofia da Universidade de Brasília pela Cátedra UNESCO Archai.
Resenha publicada no site da ANPOF, na seção Estante
