A Cola É Uma Resposta Inteligente A Uma Demanda Tola
Você afirmou, certa vez, que a cola é um direito do aluno. Por quê?
A existência da cola revela como estão sendo processados, no imaginário do aluno, o sentido e o valor do trabalho escolar. A cola só existe porque se solicitam habilidades duvidosas, como a memorização e a reprodução fiel de uma informção X ou Y. Nesse sentido, a cola passa a ser uma prática legítima à medida que significa uma resposta factível ao que se lhe está sendo ofertado. Costumo dizer, para provocar meus colegas do Ensino Básico, que se trata de uma resposta inteligente a uma demanda tola.
Que tipo de trabalho a escola faz hoje que leva o aluno a dar esse tipo de resposta? A escola tende a compreender o aluno como uma espécie de banco de dados, como se sua inteligência se assemelhasse a um acervo de informações, datas, leis, formulas etc. exige-se, ou ao menos se espera, que o aluno disponha de um repertório de saberes que nada têm a ver com a sua verdadeira capacidade de pensar. É inaceitável essa compreensão cumulativa do aprendizado em pleno século XXI; menos ainda essa modalidade de ensino "transmissivo". Esse não é o trabalho da escola.
E qual é o trabalho da escola? O objetivo escolar básico, pelo menos como eu o entendo, é o de fomentar a curiosidade e a postura indagativa do aluno, por meio da reflexão e do questionamento constante. Longe de difundir informações ou transmitir dados. É preciso, portanto, distinguir informações de conhecimento. Este não se cola. A bem da verdade, os currículos dos Ensinos Fundamental e Médio não têm como alvo aquele conjunto de dados capaz de habilitar alguém - como se isso fosse possível - a suplantar as questões do vestibular. Essa é uma concepção meio estúpida, mas ainda em voga no meio pedagógico, especialmente o privado. Vale lembrar que quem é bem sucedido no vestibular é aquele que aprendeu a pensar, a despeito, inclusive, desse tipo de mercadologização pedagógica. E mais: não se passa num vestibular concorrido por causa da pedagogia fast food, inspirada nas apostilas de cursinho. Competência, sagacidade e talento intelectual desenvolve-se já a partir da educação infantil e em qualquer escola - desde que o conhecimento significativo/contextualizado seja uma marca efetiva no processamento das salas de aula.
Fonte: AQUINO, Julio Groppa. Diálogo com educadores: o cotidiano escolar interrogado. São Paulo: Moderna, 2002.
Nenhum comentário:
Postar um comentário