terça-feira, 12 de abril de 2011

Inútil? Útil?

Em decorrência dos questionamentos acerca da função da filosofia no currículo, da falta de entendimento sobre o seu propósito e sobre o seu valor trago o texto da Professora Marilena Chauí que discorre sobre a utilidade da Filosofia:


Inútil? útil?

O primeiro ensinamento filosófico é perguntar: "O que é o útil?", "Para que e para quem algo é útil?", "O que é o inútil?" Por que e para quem algo é inútil?".

O senso comum de nossa sociedade considera útil o que dá prestígio, poder, fama e riqueza. Julga o útil pelos resultados visíveis das coisas e das ações, identificando sua possível utilidade, como a famosa expressão "levar vantagem em tudo". Não poderíamos, porém, definir o útil de uma outra maneira?

Platão define a filosofia como "um saber verdadeiro que deve ser usado em benefício dos seres humanos para que vivam numa sociedade justa e feliz".

Descartes dizia que a filosofia "é o estudo da sabedoria, conhecimento perfeito de todas as coisas que os humanos podem alcançar para o uso da vida, a conservação da saúde e a invenção das técnicas e das artes com as quais ficam menos submetidos às forças naturais, às interpéries e aos cataclismas.

Kant afirmou que a filosofia "é o conhecimento que a razão adquire de si mesma para saber o que pode conhecer, o que pode fazer e o que pode esperar, tendo como finalidade a felicidade humana".

Marx declarou que a filosofia havia passado muito tempo apenas contemplando o mundo e que se tratava, agora, de conhecê-lo para transformá-lo, tranformação que traria justiça, abundância e felicidade para todos.

Merleau-Ponty escreveu que a filosofia "é uma despertar para ver e mudar nosso mundo".

Espinosa afirmou que a filosofia "é um caminho árduo e difícil, mas que pode ser percorrido por todos, se desejarem a liberdade e a felicidade".

Qual seria, então, a utilidade da filosofia?

Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às ideias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender o significado do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para ser conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.
referência: CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 14 Ed. São Paulo: Ática, 2010.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Diálogo com o Professor Júlio Groppa Aquino

A Cola É Uma Resposta Inteligente A Uma Demanda Tola

Você afirmou, certa vez, que a cola é um direito do aluno. Por quê?
A existência da cola revela como estão sendo processados, no imaginário do aluno, o sentido e o valor do trabalho escolar. A cola só existe porque se solicitam habilidades duvidosas, como a memorização e a reprodução fiel de uma informção X ou Y. Nesse sentido, a cola passa a ser uma prática legítima à medida que significa uma resposta factível ao que se lhe está sendo ofertado. Costumo dizer, para provocar meus colegas do Ensino Básico, que se trata de uma resposta inteligente a uma demanda tola.
Que tipo de trabalho a escola faz hoje que leva o aluno a dar esse tipo de resposta?
A escola tende a compreender o aluno como uma espécie de banco de dados, como se sua inteligência se assemelhasse a um acervo de informações, datas, leis, formulas etc. exige-se, ou ao menos se espera, que o aluno disponha de um repertório de saberes que nada têm a ver com a sua verdadeira capacidade de pensar. É inaceitável essa compreensão cumulativa do aprendizado em pleno século XXI; menos ainda essa modalidade de ensino "transmissivo". Esse não é o trabalho da escola.
E qual é o trabalho da escola?
O objetivo escolar básico, pelo menos como eu o entendo, é o de fomentar a curiosidade e a postura indagativa do aluno, por meio da reflexão e do questionamento constante. Longe de difundir informações ou transmitir dados. É preciso, portanto, distinguir informações de conhecimento. Este não se cola. A bem da verdade, os currículos dos Ensinos Fundamental e Médio não têm como alvo aquele conjunto de dados capaz de habilitar alguém - como se isso fosse possível - a suplantar as questões do vestibular. Essa é uma concepção meio estúpida, mas ainda em voga no meio pedagógico, especialmente o privado. Vale lembrar que quem é bem sucedido no vestibular é aquele que aprendeu a pensar, a despeito, inclusive, desse tipo de mercadologização pedagógica. E mais: não se passa num vestibular concorrido por causa da pedagogia fast food, inspirada nas apostilas de cursinho. Competência, sagacidade e talento intelectual desenvolve-se já a partir da educação infantil e em qualquer escola - desde que o conhecimento significativo/contextualizado seja uma marca efetiva no processamento das salas de aula.
Fonte: AQUINO, Julio Groppa. Diálogo com educadores: o cotidiano escolar interrogado. São Paulo: Moderna, 2002.